Tvind Alert


RESISTINDO A UMA LAVAGEM CEREBRAL

by Joao <joao_albergaria@hotmail.com>

Ofereci-me como voluntário em 1996.

Venho dar-vos uma visão do que foi a frequência de seis meses e meio de um “curso de preparação para o voluntariado” desenvolvido pela Den Reisende Høgskole, escola pertencente à organização Humana (UFF na Noruega). Apesar de à partida estar certo de que muito ficará por dizer, penso ser importante a informação que aqui vos passo.

Fui para a Noruega de mente e coração abertos, começar a realização de um sonho.

Ía entrar numa organização que defendia toda a gente poder fazer algo útil em países com grandes carências, independentemente do seu sexo, idade, côr, religião e passado. Motivação sería a única condição necessária.

As primeiras 3 semanas foram passadas em alegria. Deu-me grande satisfação conhecer toda a gente, executar os trabalhos necessários,...até pagar o curso em avanço,...e assinar um contrato com a escola comprometendo-me a recolher fundos para a organização até um montante préviamente estipulado.

As dúvidas começaram quando íamos sair pela primeira vez  para vender postais na rua, como acção para angariaçãode fundos para a organização.

Nessa altura um forte espírito de equipa crescia entre nós. Éramos 12, de 7 nacionalidades com idades entre os 19 e os 55 anos.

Apesar de sabermos já exactamente como queriamos organizar aquela actividade negaram-nos essa possibilidade.

As imposições começaram. A acção de venda de postais seria organizada pelos membros da organização.

Certa noite fomos convidados pelo director da escola para uma reunião. Acompanhada de café e bolo foi-nos apresentada a existência do Teacher’s Group (TG). Falaram-nos da sua história, dos seus princípios (tempo comum, trabalho comum e dinheiro comum). Disseram-nos também que para ser Gestor de Projecto em África tería de se integrar o dito TG anteriormente.

Reagimos fortemente… A reunião decorreu durante horas com inúmeras perguntas colocadas por nós! Para todas uma única resposta “Não posso explicar, ainda não estão preparados para perceber”.

À saída da reunião quase todos nós individualmente sentimos haver algo muito errado naquele local. Só não sabiamos o quê!

Viviamos num velho edifício (metade escola, metade hotel vazio) no fim de uma estrada no alto de uma montanha norueguesa, a 18km da estrada nacional, a uma hora de Lillehammer.

Sem jornais, sem revistas, sem... apenas um computador com uma duvidosa ligação à Internet controlada pelo director da escola.

O referido “curso de preparação” consistia em desenvolver diversas tarefas.

As escritas, feitas utilizando velhos computadores, resumiam-se quase a dois assuntos apenas:

            A organização (princípios, projectos e visão)

            As nossas vidas (projectos para o futuro, sonhos, actividades diárias)

Todos eles seriam “corrigidos” pelo nosso professor.

Apesar de apresentados em diferentes formas, estes trabalhos eram repetidos, forçando-nos a escrever várias vezes sobre os mesmos assuntos.

Os “professores” tentaram forçar-nos a preencher um questionário semanal disponível na Intranet da escola com perguntas tipo:

            “Toda a gente mente. Que mentiras disseste esta semana?”

            “Ajudaste a resolver alguma discussão entre duas pessoas na escola? Como?”

            “Empty your bucket” (Esvazia o teu balde). Expressão utilizada frequentemente significando “diz-nos tudo”).

Na altura dessa polémica a nossa equipa estava já “em guerra” com as pessoas que trabalhavam na escola (os ditos “professores”).

Uma palavra acerca deles: ex-voluntários, contrato vitalício assinado com o TG, solteiros, visual parecido (independentemente do sexo), discursos semelhantes (algumas expressões chave), sem qualquer qualificação profissional, terrivelmente agressivos na defesa das suas ideias e da organização. Todos mentem, distorcem e escondem informação espantosamente bem.

Dessa altura em diante, a opressão psicológica tornou-se constante e intensificou-se.

A cada reacção nossa contra a imposição de ideias por parte dos “professores” seguiam-se intermináveis reuniões em que se discutia até à exaustão o assunto, terminando apenas quando todos concordavam (mesmo que mentindo) com as ideias iniciais.

Nessas reuniões os “argumentos” podiam ir de gritar a uma pessoa, a insultos, até a ameaças de diferentes formas.

À medida que aumentavam as nossas suspeitas acerca da organização, o mesmo acontecia com a dificuldade de vender postais nas ruas.

A certa altura todo o “curso de preparação” girava à volta da venda de postais e de se “atingir o objectivo de vendas assinado em contrato” caso contrário “não estaríamos preparados para ir para África”.

Os nossos objectivos não estavam a ser atingidos!

Cada acção de angariação de fundos exigia que:

            Partíssemos à boleia centenas de kms para as cidades destino.

            Não percorrendo todo o caminho num dia, tinhamos de dormir na beira da estrada e seguir novamente à boleia na manhã seguinte.

            Nas cidades, durante o período de venda de postais tivessemos de pedir em igrejas, escolas, etc por um tecto para nos abrigar durante a noite.

            Tivessemos de pedir em supermercados, padarias, etc alguma comida.

            Vendessemos postais nas ruas das 9 da manhã à 6 da tarde e das 7 às 9/10 da noite de porta em porta. Abordando toda a gente que passasse, sendo por vezes maltratados por pessoas que conheciam a reputação da organização.

À chegada ao abrigo conseguido, tinhamos de contra o dinheiro conseguido por cada um.

Todos os serões tinhamos de telefonar para a escola a fim de dizer ao director quanto dinheiro tinha conseguido cada pessoa.

Alguém que angariasse um montante abaixo do estipulado pela organização tinha de telefonar ao director da escola para discutir o porquê de tal situação e como fazer para a melhorar. Frequentemente a discussão acabava com lágrimas derramadas por exaustão física e psicológica.

Terminando cada período de angariação de fundos de normalmente 2 semanas, tinhamos de percorrer novamente à boleia as mesmas centenas de kms de regresso para nos fecharmos no alto da montanha na Noruega.

Certa vez em Gotemburgo, vendendo postais escoltados por um “professor” (de certa altura em diante um deles estava permanentemente connosco para controlar todos os nossos movimentos, conversas, etc).

Uma das nossas companheiras de equipa tinha desistido do “curso” (a segunda a fazê-lo)

Disseram-nos que teríamos de vender também os postais que ela devia ter vendido se não tivesse desistido.

Após longas disucssões, fizemos greve. Foi-nos dito pelo Jørgen (o “professor”) que “as crianças de rua em África não querem lá um voluntário que não consiga vender postais”.

Eramos 10 pessoas furiosas rodeando-o. Para evitar o pior disse-lhe:

            - Jørgen, tu não existes!

A essa altura tudo estava distorcido:

            A única preocupação de todos era dinheiro.

            A nossa sanidade mental dependia da união do grupo e de mentir compulsivamente fingindo concordar com o que nos diziam.

            As razões para não desistir não eram claras. Resistir À pressão, não vergar, proteger-nos uns aos outros.

            Não tinhamos privacidade, tempos livres, ideias próprias...

De regresso à escola, reflectindo sobre toda a nossa vivência até então, cheguei à conclusão de que estavamos inseridos numa seita de ideologia Maoísta.

Em uma das intermináveis reuniões disse-o ao director da escola. A partir desse momento sempre que possível fui apontado como ridículo em frente de tantas pessoas quanto possível por aquela minha “ideia estúpida”.

Esta mesma estratégia é levada a cabo perante qualquer voz que se levante contra a organização, contra as ideias deles.

Ouviasse falar em “algumas pessoas que lá fora tentam denegrir a imagem da organização” (agora sei que se tratava de grupos anti.seitas como a TvindAlert). Acerca destes era dito serem “um grupo de falhados” ou “gente fraca que não aguentou o curso”...

Se as vozes contra forem suficientemente fortes para causar dano, a organização entra como que em hibernação, muda de nome e de forma e volta mais forte.

É feito acreditar aos voluntários que são eles que “fazem o que tem de ser feito”, são eles que “vivem no mundo real”.

Como português que sou, estabeleci uma boa relação com o único outro português que frequentava a escola. Ele era tão contra a organização quanto eu. Percebi que acabara de viver graves problemas pessoais em Portugal. Já na Zambia soube que ele tinha ingressado no TG. Penso que ainda lá estará.

Depois de eliminar a autoestima, ideias e princípios de cada voluntário, a organização aparece como suporte, segurança e sensação de pertença a algo.

Na última vez que fomos vender postais, a nossa equipa foi dividida em vários grupos cada um acompanhado por um “professor”. Dirigimo-nos para diferentes cidades na Suécia distantes umas das outras.

Cada “professor” fêz o seu grupo acreditar de que os outros grupos tinham cedido à pressão exercida por eles para que todo o dinheiro exigido fosse angariado.

Pela primeira vez conseguiram abrir uma ruptura na nossa equipa. Ao terminar os seus objectivos individuais de vendas, cada grupo voltou à escola. Ficou determinado que o meu grupo teria de angariar o dinheiro que faltava para atingir o montante estipulado para a equipa. Exaustos, mais uma vez tivemos de enganar os “professores” fingindo ficar apenas 2 pessoas a fazer esse trabalho. Na verdade um outro membro da equipa ficou atrás para ajudar a vender os últimos postais.

Duas semanas antes de partirmos para África sofremos sérias baixas na nossa equipa.

Como resultado da opressão sofrida durante os últimos 6 meses, 2 dos nossos companheiros entraram em depressão nervosa. Uma, fechando-se no seu quarto, tornou-se incapaz de desenvolver qualquer tipo de actividade. O outro declarou-se incapaz de aguentar a responsabilidade que pensava ir ter em África.

Nenhum deles foi cconnosco. De notar que no início do “curso” eram ambos jovens alegres, inteligentes e cheios de coragem.

A última discussão de que me lembro foi acerca do contrato de seguro de saúde escrito em Dinamarquês que o director da escola queria que todos assinassemos. Uma vez mais fomos ridicularizados (etc) por levantar problemas em relação a essa questão.

Mais tarde na Zambia, vivendo em lugar recondito no meio do mato, estávamos quase sempre bastante doentes. Enviamos as contas médicas para a companhia de seguros. Nunca recebemos qualquer resposta deles!

Nos últimos dias passados na escola, os “professores” comportaram-se de forma extremamente amigável. Todo o dinheiro estava angariado!

Na última reunião individual que cada um de nós teve com o director da escola, ele tentou convencer-nos a aderir ao TG.

Todos ficamos surpreendidos com o “convite” depois de 6,5 meses de terríveis disputas.

Achavamos que eles não nos podiam surpreender mais. Enganamo-nos...têm sempre mais uma tentativa para levar avante a sua posição.

Na Zâmbia a situação foi idêntica aquelas que li em tantos depoimentos neste site.

São reais sem dúvida!

Os Africanos são maltratados, desrespeitados, negligenciados em relação aos interesses da organização.

O mesmo tratamento têm os voluntários.

Os projectos são geridos de forma extremamente amadora. Quase nenhum dinheiro é empregue no financiamento dos mesmos (quase nenhum mesmo!).

Etc, etc, etc